quarta-feira, 1 de maio de 2013

A atitude alheia


Caminha o homem pela estrada
e leva a mente preocupada
por tormentosa interrogação:
como agir perante a sensação
de horror, de dor pelo que sofrera?
Esbarra ele em outro que viera
também apressado, também distraído,
embora razão diversa tivesse afetado seu sentido.
Este traz o semblante aberto,
o olhar brilhante e atento
ao céu claro que o cobria.
Indignado o primeiro o interpela
cobrando retratação pelo que sentia.
Mas o homem, tranquilo, nem entra na querela;
de imediato se desculpa por sua distração
e segue em frente, assoviando uma canção.
O primeiro, ainda surpreso pela não reação,
não vê outro jeito a não ser prosseguir,
buscando aplacar a dor que o impede de sorrir.
Mas o encontrão, ainda que breve,
deixou nele elementos para mais de uma questão:
a dor que se sente pode ser minimizada,
ou será que pode ser encarada
como algo que paralisa, que atordoa?
Ou, ainda, como aprendizado
de que nada acontece à toa,
tudo o que vem pode ser aproveitado?
Se o sofrimento existe e é fato,
por que agravá-lo com a atitude alheia?
Não seria a própria postura que granjeia
para cada um a solução?
Assim, ao invés de maldizer a interrupção,
agradece ao homem a possibilidade de pensar diferente,
bendizendo aquele que lhe provocou a reflexão.
Cada emoção sentida é impermanente
e ao mal que se recebe pode ser aplicado o perdão.
Conclui que pensar em punir quem o fez sofrer
seria desperdício de tempo de seu breve viver.
E nessa ideia acaba por se dar conta
de que se livrara da dor que carregava.
Ergue a vista e vê a luz que aponta
para a direção exata que buscava...